Ontem à noite assisti, com a minha mãe e o meu namorado, a estréia sul-americana da ópera de Monteverdi que relata o retorno de Ulisses à Ítaca e à sua amada Penélope.
Esta sendo apresentada no Teatro Avenida e recomendo-a a quem lhe possa interessar. A montagem é funcional e interessante, e nela podem se apreciar diferentes épocas da humanidade, coexistindo a través dos figurinos e do que sabemos de história. As atividades de Buenos Aires Lírica são do conhecimento de quem mora nesta cidade, pelo qual não farei comentários de caráter musical. Por isto e porque nem fico entusiasmada com a idéia de fazer críticas artísticas. Em fim...
O meu namorado leu pra mim Odisséia no ano passado, o que acentuou o desfrute que pude fazer da obra. Sim, o Bruno tem por costume ler pra mim antes de dormir. No começo nós dois líamos reciprocamente, para assim praticar a língua do outro, mas com o tempo a tradição que permaneceu foi a da doce voz dele depositando-me carinhosamente nos braços de Morfeu. Ditosos os sonhos que chegam trás tão cálido ritual.
Ir ao teatro, à ópera, ao balé, são umas das minhas melhores lembranças da infância. Um privilégio porteño que nunca valorizei como houvesse devido fazer, até agora. Assistir todos estes espetáculos faz parte da minha vida, e é um luxo que merece ser valorado, e aproveitado ao máximo. A falta de capacidade humana para valorizar o que se tem é tão triste quanto maravilhosa a de valorar o que já se perdeu ou ficou distante. Permite-nos começar de novo. Dá-nos uma segunda chance, um olhar diferente sobre o que já conhecíamos, mas tínhamos deixado de perceber. Como é importante nos mantermos atentos! Quantos pedacinhos de vida nos escapam no meio da rotina, na falta de valoração, no tédio! E como é difícil não se esquecer disto.
Il ritorno.
A volta à pátria. A volta à mulher amada. A volta a aquele mundo a que se pertence. A aquele chamado que se ouve à distância... “retorna Ulisses, aos braços de quem te ama”.
Eu acho que, de um jeito ou de outro, estamos sempre voltando. Embora estejamos procurando algo novo, este algo novo é reflexo de algo antigo. Talvez uma necessidade, uma carência. Porque o que não esteve faz também parte do passado, e procurar satisfazer necessidades é também uma tentativa de voltar ao nosso começo, só que melhorado. Movimentamos-nos no tempo, caminhamos pro futuro, e mesmo assim estamos voltando. Sempre voltando, sempre nos reencontrando, sempre nos reconhecendo, nos vendo refletidos, experimentando.
Muitas vezes escutei as frases: “Sempre se volta ao primeiro amor” e “A Buenos Aires sempre se volta”. Existem tangos e canções com esta temática. É uma idéia recorrente. É tal vez, procurar um pouquinho de calma, a sensação de lar, enquanto continuamos a percorrer o incessante caminho da vida, enquanto tudo muda e tudo se modifica, enquanto nada permanece imutável ao tempo, à vida mesma.
Voltou Ulisses a Ítaca e a Penélope.
Voltamos Bruno e eu a Buenos Aires.
Voltaremos a Porto Alegre.
Quem sabe um dia não voltamos a Curitiba?
Ou a Espanha...
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