Já passaram oito meses desde o meu aniversário. Quer dizer que em quatro meses vou fazer 31. Como é que pode isso ser verdade?!
Lá fora está chovendo e ainda é cedo de manhã. Tem muitos pássaros cantando, e os gatinhos que moram aqui do lado se esconderam onde conseguiram. A árvore que vejo desde a sacada ainda está verde e cada vez mais linda, embora estejamos em outono. Estou aguardando a chuva passar para sair caminhar nessas ruas que ainda me são relativamente novas, mas que já consigo sentir um pouco minhas. Mas o que é que tem lá fora? Tantas pessoas na rua e nem um rosto conhecido. Tantas conversas acontecendo ao mesmo tempo e eu sem conseguir compreender nenhuma delas por estarem superpostas. Tantos lugares por onde já andei e que mesmo assim me surpreendem como uma novidade cotidiana, deixando-me a mercê desta cidade, como se ela soubesse se virar melhor do que eu neste mundo bizarro. Como é que eu vim parar aqui? Quer dizer... eu bem sei como foi que eu vim para Porto Alegre. Acho que sei também as razões que me trouxeram aqui. Os desejos e os sonhos. E o amor.
Mas mesmo assim as vezes acordo e penso que me encontro longe da minha cidade, das pessoas que conheço, da língua que me é mais natural, dos costumes que não me incomodam ao ponto de nem precisar refletir sobre eles. Tão longe das poucas pessoas neste mundo que tenho certeza que me amam e me agüentam assim como eu sou. Claro que não estou sozinha. Neste lar que estamos construindo mora a pessoa que resolveu me amar e unir sua vida à minha, apenas por amor, sem obrigações familiares ou amizades de anos, embora sejamos amigos faz anos e nos sintamos parte da nossa pequena família de dois. Só que, sendo que ele pertence mesmo a esta cidade, estou sim sozinha na sensação de desarraigamento que me pegou já faz uns meses e que não consente me libertar.
Claro que todos me advertiram sobre isto. Claro que sabia que ia ter saudade, e muita. Claro que vir morar num outro país não ia ser tão simples assim, mesmo falando a língua. E ainda por cima estando apenas formada, sem trabalho nem atividades que me permitam não pensar muito nem refletir demais... o que é que eu podia esperar senão isto? Mas o que eu mais queria era viver esse sonho, um tanto ridículo, eu sei, de simplesmente curtir a vida. Sair passear, me divertir, conhecer pessoas novas, viver experiências antes jamais imaginadas por mim! Sim, todo muito bonito, mas a vida é a vida e não um filme, embora eu gaste todas as minhas energias em tentar demonstrar o contrário. Sem a minha psicóloga por perto e me negando conscientemente a aceitar as minhas fraquezas estruturais, proponho-me sair à vida, e fazer dela todo quanto eu já sonhei que seria! Ou ao menos tentar...
Oi Any! Espero que não te decepciones por ser eu a fazer um comentário sobre o texto que escreveste que é tão belo e tão profundamente triste que chegou a doer em mim o teu desabafo, pois sinto, ainda que só um pouquinho, se relacionado ao tamanho da tua dor, os mesmos sentimentos. Pela segunda vez deixei a minha cidade natal, para buscar mais beleza, novas experiências, sonhos ... Que para mim já ficam difíceis de se realizar por causa da minha idade. Mas quem inventou que precisamos sofrer tanto para buscar os sonhos?! Deve haver outro jeito de encontrá-los. As vezes me sinto fora de foco. Voltar? Não! Ficar? Dói! Vazio ... parece que estou sem raízes e flutuo. Agora, imagino como te sentes!!! Gostaria tanto de te ajudar! Te abraçar! Pelo menos de um jeito parecido com o de tua mãe, mas também não sei como fazer isto! Acho que é impossível!!!! Só gostaria de te dizer que estou aprendendo a gostar cada vez mais de ti, a te entender e a desejar que tua solidão diminua a cada dia, que sejas feliz com o Bruno e ele contigo, pois, só por isto, TUDO vai valer a pena! Beijos! Amo vocês!
ResponderExcluirMuito obrigada, dona Leda, pelas palavras de carinho! Pois é, a vida é isso, um pouco de lágrimas, um pouco de risadas... O importante é ter por perto às pessoas queridas, e nós duas temos essa sorte. Não desespere, mesmo que esse momento da vida seja um pouco difícil, pois as mudanças geralmente são, o futuro com certeza vai trazer mais alegrias para compartilhar em família! Obrigada por ter um filho tão bonito e maravilhoso! Nós amamos você também!
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